Abstract:
A gastronomia gaúcha é o resultado de uma fusão de culturas. “A comida para os seres humanos é sempre cultura”, lembra Montanari. “Cada cultura transforma o alimento em comida”, que passa a ter significações próprias, reconhecidas pelos membros dessas comunidades. O gosto e a preferência por determinados alimentos ou preparações são resultado dessa relação cultural. Durante os seus quase trezentos anos de história, o Rio Grande do Sul recebeu imigrantes de mais de duas dezenas de nacionalidades que, junto com os indígenas nativos, formaram a população rio-grandense. Ao longo do tempo, essas diferentes culturas acabaram interagindo, mesclando-se e estabelecendo trocas, possibilitando a formação de uma gastronomia única no país pela sua imensa diversidade e variedade de pratos. Hoje, muitas dessas receitas identificam determinada região ou cultura imigratória do estado, sendo únicas e inexistem em nas regiões de origem dos imigrantes, sendo o fruto das adaptações aos ingredientes, técnicas e ao conhecimento ancestral do local. O livro “A Cozinha do Palácio Piratini” surgiu dentro de um contexto de valorização da cozinha regional, que acontece como movimento global, com ingredientes e receitas locais. A equipe, que assumiu a Cozinha do Palácio Piratini, em 2011, procurou trazer a culinária regional para o dia-a-dia das refeições do governador, para os eventos e almoços de trabalho. A cozinha do Palácio passou a ser uma vitrine da cultura gastronômica e dos produtos locais, servindo não apenas o tradicional churrasco, mas pratos das diferentes regiões e culturas gastronômicas do estado, do litoral a serra, dos vales ao pampa, da cidade ao rural. Esse livro é uma seleção desses pratos servidos nessas ocasiões, que vão desde os pratos mais simples aos mais elaborados, mas que exprestas e ouvindo as narrativas sobre a origem das receitas; histórias e sabores que despertavam a memória afetiva das pessoas com as quais se conversava. Esse projeto, também, contou com o apoio das universidades e Escolas de Gastronomia e da FAPERGS, resultando em estudos nessa área. A reedição desse livro, em meio digital, durante o ano do centenário do Palácio Piratini, vem demonstrar que o interesse que gastronomia regional não é meramente uma tendência, mas, bem mais que isso, é uma forma de valorizar as tradições e a cultura rio-grandense, despertando as memórias afetivas, ligadas aos sabores e à comida das famílias e comunidades, adormecidas pela correria do cotidiano.