Abstract:
Dentro da pequena casa de madeira, lá estava ela, em frente ao fogão, com vestido reto até a altura
das canelas. As mãos magras, com veias à mostra, mexiam a polenta, que fervilhava por minutos, enquanto a galinhada fazia barulho na panela de ferro.
O aroma invadia a rua, de onde eu chegava quase hipnotizada para almoçar com a nonna Debrandina que, durante a refeição, quase nos obrigava a comer bastante, para retribuir o carinho da cozinheira. Cenas peculiares de infância não se apagam. Até porque, depois, minha mãe e minhas tias também seguiram ensinamentos da nonna e uma infinidade de receitas apareceu: bolo de manteiga, pão sovado, ambrosia, lasanha, biscoitos. Assim como eu, um número (difícil de quantificar) de pessoas com raízes italianas preservam lembranças por meio de garfadas em pratos de família, geralmente muito simples.
Com o tempo, percebi que, principalmente para as mulheres italianas do passado ou aquelas que conviveram com os imigrantes, cozinhar era oferecer amor e dedicação. Os minutos em frente ao fogão, a obrigação de alimentar as famílias e até mesmo a escolha dos ingredientes eram atos de afeto. Afinal, há algumas décadas, não sobrava tempo para muitas demonstrações de carinho e talvez nem se sabia como fazê-las diante de tantos desafios e pouca informação. Era
preciso cozinhar principalmente para sustentar a turma que vinha da roça com a barriga roncando de fome.
Claro que isso foi se transformando, assim como as receitas de família que você encontrará nesta belíssima obra que apresenta 12 histórias de um total de 15 mulheres que se dedicaram a manter viva a memória da cozinha italiana. Junto com elas, apresentamos 20 receitas de afeto, de raiz italiana e repletas de amor.
Por isso, a obra Afeto e Cozinha de Raiz: A força feminina na manutenção da cultura e memória italiana é muito mais do que um compilado com segredos de família. Percorremos seis municípios gaúchos afetados pelas enchentes de 2024, na Serra e no Vale do Taquari: Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi, Muçum, Santa Tereza e Vespasiano Correa. Durante longas conversas, minutos de panelas fumegantes e saborosas garfadas, descobrimos que a culinária é uma forma de se conectar com o passado e uma oferta farta de amor.
Em nossas andanças, selecionamos mulheres fortes que são guardiãs da história escrita por meio da comida. São elas que ainda preservam receitas trazidas pelos imigrantes italianos, que desembarcaram pela primeira vez há 150 anos no Rio Grande do Sul. São, em sua maioria, mulheres que, ainda meninas, foram obrigadas a comandar fogões para alimentar grandes famílias que vinham da roça. O aprendizado gerou memórias e relações únicas de amor entre filhas, mães, avós e sogras, que deixaram um legado ao ensinar e inspirar a dedicada técnica de cozinhar.
Essa publicação, escrita, editada, produzida e diagramada por mulheres, é uma homenagem à força
daquelas que resgatam a cultura italiana, mesmo diante do imensurável desafio que foi passar por uma enchente. Por falar nisso, nossas histórias se cruzam. Criamos este projeto inspiradas em nossas raízes. Eu e a coordenadora Francine Agnoletto temos origem italiana. E, assim como as personagens dessa publicação, vimos as águas da enchente de 2024 engolirem nossas casas e levar inclusive recordações de nossas nonnas (como a foto acima, que é da nonna Debrandina e do nonno Francisco).
Embora a vida apresente percalços, sabemos que sempre teremos na memória o sabor e o aroma do molho de tomate, da polenta quentinha, do pão bem sovado e dos bolos recém-saídos do forno. Memória afetiva não se destrói jamais.
Desejo uma deliciosa e inspiradora leitura e convido você a escolher uma receita da sua família para eternizá-la!